26 janeiro 2006

Carmem tinha nome de puta. Era das melhores: limpos, suja.

21 janeiro 2006

Vermelha (a calcinha)

Kátia Flávia só usa comestíveis, bélicas e gastas pelo uso. Tudo parece girar em torno do sexo. Pensamento em torno e em meio ao. Não é Freud. E é. Parece que ao fim e ao fundo nada faz sentido. Nem polícia nem contravenção. Sentido algum, posto que continua a cavalgar como fosse sobre abismo. Em verdade não era. Kátia Flávia, louraça belzebu lúcifer satanás. Usa somente as bélicas, as do exército. Exercita-se tirando-as, ou a contragosto ou a gosto do cliente, que as engole como a si. Morango, bolinhas, orifício dianteiro, antiaéreas, mini, fio, franja, framboesa, armamentos bordados, laicra, rígida, seca, molhada, útil, principalmente útil. Minto - mas Kátia mente também. O principal era o silêncio confinado às calcinhas: usadas mas discretas.

18 janeiro 2006

Não (palavra chave para entender a idéia principal do texto), deixa pralá (não menos importantes)

Num bar, um garoto bêbado de trejeitos iguais aos meus (quando estou sóbrio) sorriu disfarçadamente. Não tão às escuras que um dente não pudesse ser visto. Então as garotas amigas que o acompanhavam quiseram saber o motivo.
Não, deixa pralá. Mas de que você tá rindo? Por favor, fala. A outra insistiu. Não, é só de algo que eu pensei de vocês. Mas nada importante. Ihhh. Começou tem de terminar. Não sei se não falaria... Vocês me reprimiram. Ah, (e cantaloraram a música) não se reprima, não se reprima... Não, deixa pralá. Ah, fala. Uma dica, aposto que eu acerto, que uma de nós acerta, e se acertarmos uma parte, um nome, se chegarmos perto, aí você vai ser obrigado a contar o resto. Aposta? Não, assim não. Quer dizer: nem assim. Uma pistinha só. É, uma pistinha denada. Denadica, outra disse, e denadicasita, falou a mais bonita. Não... nem... nè... será? Diz que sim, vai, diz que sim... SIIIIIIIM? Não, não era nada. Deixa praláApenas que o biquinho de seus peitinhos estão durinhos. E pensei em sexo. Mas não disse porque vocês iriam ficar envergonhadas. Claro que não pensei NEEESSAs palavras, só o estou fazendo (dizendo com essas palavras) porque sabia que não iriam entender a metáfora que pensei, já que tudo é tão circular e confuso (na verdade é uma espiral).
E acabou não dizendo o (metafórico) que o fizera rir. Não, deixa pralá.

17 janeiro 2006

O pai tinha cinco filhos e um ferro de seis no cartucho. Desgostoso e desfeminado aplicou uma na garrucha. O último ensaio foi o que lhe estourou os miolos.

16 janeiro 2006

Who sang the song?


É bem verdade que meu disco preferido é o The rise and fall of Ziggy Stardust and the spiders from Mars. A mentira é nunca ter admitido por medo de dizerem seu bichinha, gosta mesmo disso!?

14 janeiro 2006

Memorar solene

Em preito e veneração ao amigo que se foi, o melhor companheiro que a cobiça apetece, que mesmo silencioso ladainha, cujo sincero olhar de animal cordado e nadadeiras e escamas e brânquias suspirosas, de ais que não se levam ao forno, amigo melhor in Teo sallus.

Este blog fecha-se por hora em homenagem ao peixe Highlander, cujo ensinamento seguimos quase em mais ou menos: Quem cala não mente, quem fala não sente. E teria dito.

06 janeiro 2006

Abrenúncio

Dizem os amigos serem o mal-humor minha mania e o bom meu excelente atributo.

02 janeiro 2006

Hipnoblepsia

Feche os olhos. Tente imaginar como é realmente. Primeiro as coisas. Inspire-se profundamente. Mantenha fechados os olhos, sem apertá-los. Sem contrair qualquer músculo, deixe-se levar por minhas palavras, deixe-me guiá-lo ao intenso e impenetrável. Deixe eu mostrá-lo.

Pondere, repare, preste atenção apenas em minhas palavras. Prolíxas glosas.

À minha contagem, regridirá soniformes momentos, instantes. Perceberá nos minutos sua relativa brevidade. E as horas. Os dias contar-se-ão em marcha lenta, regressiva; dos anos - em cada qual apenas uma ou duas lembranças - até as eras. Quando eu disser ‘um’, será capaz de percorrer eras e Eros. Este mostrar-se-á afável, mas ao primeiro toque repudia-lo-á sem explicações. E não questionará, continuará remando até o incognoscível, até sentir apenas as palavras que lhe digo.

Firme-se, crave resistência, aferre e fixe-se em minha contagem. Signifique-se. Quando eu disser ‘dois’ seu corpo não necessitará de sentido, estancará tal e qual. Seus olhos movimentam-se ligeira e intrepidamente, pressionando sua mente a formatar imagens, sonhos que sabe sonhar. Escuta minhas palavras porque quando disser ‘três’ seus ouvidos em desalento descoroçoado restringir-se-ão ao de fato. Os sentidos enodoados logo mostrar-lhe-ão a verdade. Está empedernecido! No ‘quatro’ suas mãos e seus pés lhe pesarão. Em seguida, no ‘cinco’, de seus joelhos ao pescoço, de seus membros à testa, sua cabeça, a tíbia, a bacia, sua cérvice, seu agouro, suas nádegas e a medula, quase todo o corpo sem exceção da alma tornar-se-ão insuportáveis. O coração será o último. Não se preocupe se o não sente bater.
Sente o aroma do litoral. Corre em direção ao mar, desolante. A paz podre, o profundo sossego. Percebe nas marolas o bafejo virginal dos seios maternos. Mete-os em sua boca e retém o sal. Engasga com cuspo a redenção. Seus ouvidos tocam o vômito. Não se preocupe se não ouvir barulho algum martelar; mãe ainda há. Abocanha-lhe o crucifixo pendurado ao pescoço, rasgando enamorado e inconsciente a boca, deixando o sangue jorrar incólume pelo colo materno. Salta até as águas profundamente negras.

Quando eu disser ‘seis’ o tempo não mais passará. Estático como você, como minha voz. Ventos pestuosos esses que precedem a bonança. Leme de ló ao barlavento, chama ao zênite a âncora. Desestriba-se já. A horas mortas revolta-se horaciano sem filosofemas, à má sorte, à deriva. A agitação procela; protestos em vão lhe vão. Jorra-se ao mar, e nele um maremoto. Você mesmo sem escolhas, só nadar, nadar.

Digo ‘sete’ e isso são águas passadas. Ouça-me: o ‘oito’ lhe lembrará a infância, os momentos felizes. O que resta visível é apenas um filete mal-navegável, decrépito. Rio nem mais transborda, nem mais há chuvas, torrentes, maremotos, enxurradas, lágrimas. O máximo de emoção surge quando o pingo do colírio no olho derrama-se rosto abaixo simulando choro. Há verbos, porém. O navegante passa deitado em sua proa: canoa qualquer. O vento ofegante, seco, custa a dar-lhe significado. As duas margens nele se encostam, isomórficas, ondulantes, dispersando o engodo indesejável. Às últimas horas insetos madrugados como grilos e cigarras estridulam à expectativa de encontrá-lo vivo. Em vão.

Essas são lembranças suas, as mais intimas; o homem que jaz é você, mas não pode levantá-lo, não pode levantar-se, não se levante! eu lhe ordeno. O ‘nove’ lhe conduzirá ao berço, o ‘dez’, ao ventre. Não saberá o que sente, não poderá exprimir-se. Pense na última palavra antes de esquecê-la completamente.

Abra os olhos.