28 fevereiro 2006

Crescia. Os cabelos brancos, caídos e encaracolados. Quase falsos. De velho faltava-me forças para o insulto. Ele tomara o pó da terra e soprara-me nas narinas o sopro da vida. Então não pude respirar. O coração batia seguidamente, ininterrupto. Minhas veias cardiopatas, e os olhos de um psicopata. Pensava no pior. Pensava em cuspir para cima. Talvez acertasse o cú de Deus. (...) Não havia de qualquer árvore fruto que não se comesse. Mas já então havia bem e mal. Menos bem que mal. Deus só não era um filho da puta porque lhe carecia uma mãe.

24 fevereiro 2006

Verdade verdadeira

É a mais pura verdade. Do quincas, defronte ao Mercado, apreciava-se tudo. Não foi apenas morte; foi morte e tragédia. Tragédia e comédia. Os estudiosos chamariam de ironia. Basta o relato: verídico. Comédia não apenas por conta dos trejeitos bêbados, transebundos, irregulares e coitados do homem que daqui a pouco seria atropelado pela ambulância do SAMU.

13 fevereiro 2006

Desprezava toda a gente. E era paradoxal porque ali vivia - entre. Não tardava as sete da manhã e o ônibus, o centro cheio, pessoa e meia por metro, efevercido, pululado. Uma só gritaria, embora não se distinguisse sequer uma voz, uma frase, um rosto, um ritmo, um espasmo. Desconhecia e desprezo. Talvez não fosse por isso paradoxal. Escapolia do trabalho ao banheiro. Tinha tranca. Despia-se. Sentava e recolhia os joelhos junto à testa. Fechava bem os olhos e desejava esquecer. Sempre pensava, e desprezava toda a gente.
Enxugado o rosto, retomava o lavor. Largava às seis. Hora do rush. Elevadores superlotados, cai não cai, arranha-céus, fumaça empregnada, as lixeiras, bares, bueiros, sinais, aqui acolá, a esquerda e a direita: trapos, a chuva avançando, cadeiras de roda, chicletes e outras coisas. Gostava das coisas; era apenas para as gentes o seu desprezo. Talvez fosse paradoxal, uma vez que circulava por entre, ultrapassava-as, bom-dias, obrigados, sim senhores, mais alguma coisa?, um café, por aqui, na sala ao lado, pode entrar, senhora, não se preocupe, estou só confusa.
Em casa: a família. Tinha um peixe. Ela o tratava como coisa. Dia sim, dia não, trocava a água, esfarelava o pão, dando ao bicho o de comer. Esperava a mesa esvaziar e sentava-se para jantar. Não assistia novela, filme, nada de música, em Deus não cria. Tudo isso lembrava-lhe gente. Gostaria de esquecê-las. Quando pensava nisso preferia a solidão. Desprezava as gentes.
Certamente há nisso um paradoxo, porque fechada em seu quarto - e reclusa - convinha apagar as luzes e tapar os ouvidos. Sua sombra era demais. Sua voz. Escapara de tudo, exceto de si mesma.
Fez que empunhava uma automática. Destravou. Fixou bem a mira cuidando pudesse mover-se rapidamente. Segurou o gatilho e ra ta ta ta ta ta ta ta ta ta e de volta ra ta ta ta ta ta ta ta ta ta. Descarrilhou. Correu a se esconder atrás da marquise. Maquinou os passos seguintes com o coração desacelerando. Como fosse gatuno atirou-se em duas cambalhotas até o bunker. Retirou da cintura a granada, fez tick com a boca, contou um doi três e arremessou-a junto ao alinhamento hostil. Os inimigos pareciam agora não poder levantar-se. Ele mosmo tomou as rédeas e um a um os pulsos. Empunhava faca. Agaixado e furtivo empunhava faca e imobilizava definitivamente quem ousasse. Era Rambo - o pai suspirava por derradeiro.
- Rambo não, pai. Sou Jack Bauer.

07 fevereiro 2006

Desligue o pc e vá ler a Bíblia!


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