31 março 2006

Guardava um segredo secretíssimo. Estava tão bem escondido que sequer lembrava qual era, menos ainda onde o guardara. Talvez soubesse o que fazia quando optou por esquecê-lo completamente (como aquele filme, como se chama?). As mãos, outrora seguras, tremiam como medo canino de trovão. Parecia Mohammed Ali, mas branca, quase amarela, mais rara que uma pepita de ouro maciço; branca, quase amarela, como a pedrinha trêmula entre o indicador e o polegar trêmulos. Na esquerda, a colher. Aflita. Ávida.
Depositou. A esquerda, porém, era a mão boba, encapetada. Arreceada, fazia a minúscula pedrinha repicar sobre a colher. O fogo, onde estava o maldito fogo? Não, ela não pensaria em sexo uma hora dessas. Tentava lembrar-se. Em vão.

24 março 2006

Terceira e última, mas do meio.

(...) De qualquer modo, comecei. O bafejo, pois, tirara-me do sono eterno, enforcara-me junto à moléstia da vida. Se há culpado... Eis que vejo a redenção e tento uma vez mais o insulto. Em vão. Logo o primeiro impulso é retido pela gravidade dos anos. Os cabelos nem caem nem se pregam à cabeça. Deixo de ser homem... à qualidade de semi-verme. Reclamo como um troncho... cada... abocanham-me como os cupins a madeira (...)

22 março 2006

(final daquele que eu começara anteriormente)

Comecei por não ser nascido. Tampouco crescia. Os cabelos pardos, pregados à cabeça como se boi os lambesse. Quase verdadeiros. De proveta restava-me forças para o insulto. Ele tomara o pó da terra e esquecera de soprar-me nas narinas o sopro da vida. Então não pude respirar. O coração quieto, à espera do apito inicial, aflito. Minhas artérias apenas eram ornamento, e os olhos fechados como os de um cadáver. Pensaria no melhor, se pensasse. Se pensasse, pensaria em cuspir para cima. Talvez acertasse o cú de Deus. (...) Não havia de qualquer árvore fruto que se comesse. Mas já então havia bem e mal. Mais bem que mal. Deus era mesmo um filho de uma puta; e mimado, pois era filho único.

18 março 2006

Beijou-o como se ele fosse um traidor. Na testa, depois nas faces. E a recompensa não era 30 dinheiros. Não era bela, desabotoada. Sem batom, os dentes lhe escapoliriam caso sorrisse. O beijo foi como um murro de Tyson ou um poema de Rilke. Foi mais que esmola; sentimento descartado. Virou-lhe as costas por fim (recompensada, posto que sua vingança fosse a solidão seguida da saudade).

09 março 2006

Rosebud

Vargas mantinha o olhar apressado, tranco e chão. Tivesse o dia mil horas e ainda Vargas viveria em ebolição, sem folga, férias, calma ou animais de estimação. A vida poderia ter mil anos e Vargas nunca, nunca, nunca pararia de viver, mesmo que fosse para pensar.
Isso foi antes. Agora Vargas cultiva fartas rugas, sua mão é como papel envelhecido, amarelada, débil e elástica. O corpo pesa mais que a alma. Custa erguer-se; voz rouca que só admite bom-dia [preguiça talvez] e os pensamentos agora envoltos junto ao dano. Calúnia em idéias.
Incrivelmente [coisa de Guinness talvez] o corpo de Vargas encolhe-se dia-após-dia, exceto o nariz e as orelhas. Os cabelos caem tanto no outono quanto na primavera. Cada dia é o último, porque cada dia pode ser o último, porque há de ser, será.
Vargas molengamole. Demora-se no balançar da cadeira; deseja nada, assiste nada, tampouco a vida, tampouco vive. Rememora. Casmurro Vargas pensa em cada dia que não pensara. Chega a refletir. Quase dorme, delibera, mas logo descrê.

Stein's XXIe siècle review

A woman is a man is a man is a man is a man
A woman is a man is a man A woman is a man is a man
A woman is a man is a man is a man is a man
A woman is a man is a man is a man is a man
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