29 junho 2006

7

Cândida era Absoluta, mas nunca não era Cândida. Capitu era Capitu. Olhos de ressaca. Cândida e absoluta. Acorda com o sol que amanhece. O ônibus em lotação máxima (42 sentados e 35 de pé). As janelas são concorridíssimas. Os homens sentados não são gentis, não se dispõem a carregar a bolsa das mulheres de pé. As mulheres desconfiam de cada homem que se dispõe a carregar sua bolsa. Dissimulam. Ambi- -Dui. Sobe um, dois degraus. Os olhos grudam como cola Cascolar. Desgrudam. Boca seca, não cospe. O esforço da respiração, a redenção, o aroma ressentido de éter. Cheiro azedo de velho. Os bancos na parte dianteira do ônibus se reservam a idosos, idosos, idosos, gestantes e deficientes. Como há gente no mundo que não morre? Zaggalo, o velho lobo, Villy Gonzer, o mais completo, Mikhail Gorbachev, o ex-comuna, Sandra Abdo* Boris Casoy, e, isto é uma vergonha, até o Niemayer, Silvio Santos, Ferreira Gullar e os acadêmicos imortais. Sancho Pança aconselhava estar vivo para se morrer. A morte contradiz. O cheiro de éter contradiz. As pálpebras soltas se grudam como quem não quer. Desquer. Quereres são coisa de quem passa a roleta. Há tantos velhos e velhos e velhos que Cândida não pode. Se segura onde dá. Dá-se ao que vier, como quem se dá ao carrasco. Há uma grávida. Carrega algo que lhe sobra. Dois. Um inválido no canto, algo lhe falta. Meio. Os outros esquecem-se de ser velhos e continuam velhos. Zero. Não sabem se são ou não.

Há vida em olhos de ressaca. Depois, o tempo pára.

Sonhava o mesmo quando criança. Sempre. E se abrisse os olhos as mesmas imagens se projetariam no teto com um filme de Bergman. Quis esquecê-lo. Nunca. Ficou-lhe o segredo. Dizem que o segredo é o legado do homem à humanidade. Cândida não teve filhos.

Sonhava. Havia uma moça e um gênio da lâmpada. Três pedidos. Ela quis fosse linda. Voalá! E nada mais era belo, nem bonecas nem plantas nem cadáveres nem o céu. Sob ao menos um ponto de vista, todas as outras pessoas enfeiaram. Restou ela, bela. Não satisfeita, quis fosse amor. Amar, verbo pronominal. Indecisa, ninguém não a pode amar. Quis mais 3 desejos. Ambiciosa, quis riqueza. Imediatamente. Detia direitos do céu à terra, e sobre o que há acima e abaixo. Quis fosse imortal. Ordenou, ao passo que o deus, num piscar de olhos, exterminou a pessoa. Uma a uma. Como se o acaso fosse questão definida, deixando-a só, consigo e mais ninguém. Matou-se a si mesmo, sem cometer suicídio. Não pode. Ela lhe ordena, troca todos seus desejos por uma morte digna, de bala. Ele não pode. Tem lá seus motivos. Quando um suicida não alcança sua ambição maior, quando de alguma forma seus planos correm esgoto abaixo, ele não se sente como se tivesse ganho outra oportunidade, salvo. Deseja afogar-se no mesmo esgoto de seus planos. Antes, imagina um tiro esfacelando o coração, sente uma culpa adjetiva e quase sem objeto, como se algum vício anônimo lhe tomasse o corpo. Então ele prefere chorar um choro esquisito, de outro.

Acorda. São olhos e escuridão. Como se nunca tivesse sonhado, abri-los é fechá-los. Escuridão.

O gosto acre de lágrima. O gosto acre de éter. O gosto acre de alcool.

Após alguns momentos um homem alcoolizado, inchado e barrigudo escancara a porta, tira o cinto, baixa as calças e paga adiantado com notas velhas e amafalhadas de R$ 5,00 (cinco reais).

Embebeda-se para dormir. Acorda pontualmente em sua cama suja, límpida e Cândida, absoluta.

Com os olhos de sempre. De nunca.

15 junho 2006

6

Astrogilda é moça de um recato. Senta-se, e sua mini-saia mostra mais do que devia. Pernas não se abrem. Se fecham. Insinuam. Pernas pra que te quero, pernas. Astrogilda tem pernas de anjo. Brinca com seus amiguinhos a brincadeira do como se. Como se como se pudesse ser brincado. Cruza as pernas como se fosse a Sharon Stone de Instinto Selvagem.

José ronca toda noite. Pausas de cinco a sete minutos. Vai num crescendo, até que pára. E recomeça. Vira-se. Revira-se. De barriga para cima seu ronco parece uma britadeira. De bruços, asfixia.

Insônia não deixa E. Apreciaria um abraço sincero. E é do tipo existencialista. Acredita em mais coisas entre o céu e a terra. Existencialista e ainda assim não pensa em suicídio como coisa séria. Pensa em matar o filho da puta de seu vizinho de baixo, que não a deixa dormir.

Hilda tem a maldade da Chiquinha e a crueza de Dona Florinda, a preguiça do Seu Madruga, a mesquinhez do Seu Barriga e o medo incontido do Chapolin Colorado. Pronuncia tantas e quais palavras inusitadas e impertinentes como o Chaves. Guarda segredos tão secretos quanto a Bruxa do 71. Não tem nada do Kiko.

Desculpas são o que melhor inventa Mar. Advogado. Ama sua boneca inflável.

Eu.

Duda é eslava. Parece um macho de frígida. Olhos verdes de se perder. Conhece Erza Pound, Böll, Grass e Faulkner.

Carolina tem qualquer coisa que. Chora.

Carlos amava Dora. Agora ama tereza, que não ama ninguém (exceto a si mesma). Poucos centímetros são quilômetros. Ela, vasta, diz incongruências sobre o amor em seu blog. Não sabe da missa o terço. Visita a igreja vestindo negro. Simula luto, medo. Esquisita. Feia, e ainda sim Carlos a ama.

Esquisofrênico como Bacamarte só havia um, Simão, que se vexava ao olhar alheio, estremecido nas pontas dos pés arranca seus os cabelos, até que Bacamarte. Olhar fixo. Ostensivo. Mínimo, que não o enxergassem. Vai até o ponto final.

Quando pequeno, João era Joãozinho. Em Minas, Joãozin, Jão, Jô, J, João. Metafísico, como se nome fosse coisa do mundo, J se encolhe ao invés de crescer. Tropeça em qualquer grão de areia. Seu sonho é construir um castelo de areia ou cavar um buraco que lhe coubesse o corpo. Pediria encarecidamente que jogassem areia por cima. Prenderia a respiração por alguns minutos. Cuspiria a areia como quem assopra fumaça. Um dia alguém ainda lhe consuma o desejo.

10 junho 2006

5

A Casa. A casa era apenas abrigo. Contra intepéries. Vento, frio, chuva. Exceto calor. Deitado media 2 por 1,5 (dois demim em comprimento por um e meio demim em largura). Uma porta, janelinha lateral gradeada para evitar o ladrão. Quase não era casa, mas mantinha firmes 4 (quatro) paredes e o desconforto único.

Dentro. Nada era engraçado. Havia chão. Não havia quem o pisasse, porque parecia não haver chão. Parecia movediça ou amaldiçoada. Casa de bruxa, macumba, casa vermelha, da luzluzida, da mãe Joana.

Isso pouco importa porque mesmo não sendo uma casa havia chão. E chão é algo que só pisando.

Era casa abandonada e ninguém a percebia. Desdobrava-me e ninguém. Um e meio demim, dois... fiz das tripas o coração e a casa continuou abandonada. Completamente.