23 julho 2006
do grego ειρωνεία
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19 julho 2006
9
Mesmo caída. Mesmo arrancada à bicicleta. Os pequenos sinos ainda soavam. Dobravam de acordo com o vento. Treze anos. Aros 12 de plástico branco. Rodinhas para auxiliar o equilíbrio. Guidom cromado em tons de rosa que se esvaem pelo quadro abaixo, imponentes e meticulosos. O mais importante, uma gaiolinha na frente. Carregava sua boneca, causa mortis, foi o que se concluiu após ampla investigação.
O crime horrorizou a cidade. Tanto o SUPER quanto o AQUI deram manchete:
MENINA DE 13 ANOS BRUTALMENTE ASSASSINADA
Belo Horizonte, 20 de julho, a barbárie se instaura. Nem mesmo nossas crianças e suas bochechas róseas, os velhos e suas dentaduras malacafentas, os intelectuais e suas mesinhas de escritório, os autônomos e suas bujigangas, os viados e o que é seu por direito. Exceto os mortos, todos, qualquer um, mesmo os filhos de Deus, do Diabo, mesmo Deus e o Diabo numa mesma canoa, ninguém, todos vivemos em meio à barbárie.
O pai [foto à esquerda] chora suas últimas lágrimas verdadeiras. Uma multidão deslocou-se ontem a tarde ao cemitério para demonstrar sua solidariedade.
“Estamos Vivos”
Era o que exibiam as faixas de protesto no centro da capital mineira. Menina de treze anos encontrada morta ao lado de sua boneca. Covardia. O inquérito policial, ainda em processo, sugere assassinato brutal. O assassino ainda não foi encontrado. A cidade está em alerta. Quem será a próxima vítima? (pág. 16)
Inconformado com a tragédia o pai trocava sua própria vida, todo seu dinheiro e o que mais fosse necessário, inclusive seu amor, inclusive sua honra, pela oportunidade de vingar-se. De nada adiantava, porque o crime, que mais parecia um acidente qualquer, carecia de explicação racional, legitima, de provas cabais, de testemunhas. Enfim, carecia-lhe uma causa, e crime sem causa é um crime nu.
Apenas a boneca, que a despeito de ter presenciado o crime, planejado e executado, não se pronunciou sobre o caso. Insensível aos apelos do pai, ao choro incontido e histérico. Permaneceu em silêncio até o último momento, quando tiveram a brilhante idéia de enterrá-la junto à filha, afinal amavam-se. O pai enterrar-se-ia também, lado a lado, vivo que estivesse, foda-se, se não fosse o despropósito da proposta. Ele ficaria aqui, entre nós, ao encalço do criminoso.
Quem acreditaria na hipótese de suicídio? Nem você. Nem eles. Se eu não fosse imparcial, tampouco acreditaria. E seria impossível, uma vez que a vítima se arrastara ainda por alguns metros, em direção à boneca, antes de desfalecer. O corpo se enrijecera de tal forma que a ponta do indicador apontava para a boneca. Boneca sem nome. Vamos chamá-la A.
A menina apontava para a boneca quando morreu. O braço enrigecera. Ainda coube num caixão de adulto, já que o pai não autorizou os legistas a quebrarem alguns ossos, procedimento usual nesses casos.
Ciúme, embora nada se possa dizer de inteligível, claro e significativo quanto a uma explicação. A. tinha ciúme. Crime passional. Ciúme por não ter mãe, nome de mãe. A. era sempre filha, filha, filha. Não tinha mãe, porém, porque a menina não dividia a sua por nada nesse mundo. Filha da puta egoísta.
A. sequer tinha um nome, a menina sequer lembrava-se que no mundo de hoje é preciso ter um nome. Mais que roupas, mais que engatinhar, mais que mentir. Antes de tudo. Quem aí não tem um nome? Que coisa ou tipo de coisa não tem um nome? Tudo tem nome, inclusive tudo. E quem não concorda, que ouse dar um exemplo.
Quando queria brincar, a menina apontava seu dedo, como quem chama, como quem manda, como mãe. Mas a menina não era a mãe da boneca - isso seria absurdo. A menina era filha e apontava o indicador para a boneca como quem insulta, como quem xinga, como quem quer mal.
Tudo ciúme. Mesmo caída.
14 julho 2006
8
Verborragia.
A vida da máquina por um fio. A vida da moça por um tubo.
Ela, franzina, cheia de vírgulas e curvas. Curva, assim como a vida e pontos finais. Um isto a mais e pronto. Outrora ousada. Mestre, talentosíssima, jovem, estilosa (na escrita e na lida obviamente). Hoje, aí, por aí adornos pelos cobertores, pelos calafrios, por suas constantes... as dores de cabeça, os vômitos sem substância, as infernais ânsias, o gosto amargo de éter, de enxofre.
E os DELÍRIOS.
Sem elucubrações muito metafísicas. Muito não. Nada de Tomás de Aquino. Nada de Jean-Paul Sartre. Nada de nada. Delírios quase humanos, quase comuns, quase com razão, mas desarrazoada a menina, ela, franzina, entre as vírgulas de sua imaginação fértil e a experiência imediata, divina, tal qual a trancendência, mas sem isso de grande metafísica; tal qual o amor, a sua pieguice, a preguiça do casal à luz do dia. As invejas brancas negras de inveja.
Delírios numa cama bem-posta, como um sonho sempre insensível e nunca abscôndido, toda a cama em sua arrumação costumeira, as enfermeiras sem trabalho em qualquer aí, ABSOLUTAMENTE.
Tudo, exceto os vômitos, as vazantes, os cobertores sujos; o corpo da menina quase não mais próprio a sua vontade – interna, vontade do fundo de si, pois por fora apenas angústia, nolição, ato desatado, um hirto teso, a verticalidade numa cama: sangue mas carne, ossos.
A vida da moça, a vida da máquina. Uma entubada à outra, ambas necessitadas de qualquer digestão, de qualquer respiração verdadeira. Todo o socorro possível, medicamentos, tratamentos, exames, receitas, lista de hospitais, pista de curandeiro, semente de Oxalá, oferenda pra Ogum, encruzilhadas, injeções, fé, muita fé de muitos, promessas, promessas que numa vida pouca e parca dificilmente. Embora nada disso... e nada de qualquer outra coisa, de qualquer possibilidade.
Seus últimos momentos, a morte ali por perto, o restante de si, que porcamente ser-ente est; tanto tempo nesse mundo, dessa gente sem valor, e tão menos que um ISSO pra guria curva e vírgula, a seguir, já-já, seu ponto final, o pôr e o nascer, ambos crepúsculos, ambos iguais. À ruina: o termo.
Ninguém em sã consciência – e mesmo alguém em contrário, contrariado com o rumo da própria vida, ainda assim a existência, isso da qualidade tocante a um simpes pôr de sol. Ao nascimento também, porque unicamente dos astros o movimento, dos seres este ser sacramental, o sacrilégio do ser, sua estaticidade essencial. Mas à grandiosidade destas manifestações, todas essas, do sol e dos seres, sucumbição, soçobração, tudo sem poréns. Seu olhar seu sempre novo a cada dia, quase anodinia, indiferente como o sol, olhar perdido na realidade louca, assim de olhos estufados, eles, dela, imensos, tãomente que as horas para a comoção pequenas, e não mais do que em repouso, virgem.
A vida. Ávida.
Exceto a poesia. A poesia de nós mesmos, e dela.. Por Carlos Drummond de Andrade: De qualquer tempo o tempo. A mesma hora da morte a hora do nascer. De nenhum tempo o tempo bastante para a ciência do reviver. Tempo contratempo, o mesmo em contrariedade, mas o sonho imensurável deste seu viver.
Morte, vida, veracidade e severinos. O rio debalde, e ondas do rio pro marzão, anônimas e seguidas elas, como o sol de todo dia, que de nome talvez menina, somente franzina e só, anônima como vírgula e Maria, ela, como as ondas no eletrocardiograma – as mesmas dessa nossa lida. Vida pequena, deveras, igual a si: Maria, um e cinquenta de pequeneza, hora do almoço, e que coicidência!, a injeção direto na veia, sem fome ou forças para.
Isso de delírios e verbos, de ideais e novas vidas, por conta a perpetuação humana, o concebimento de novos seres através da seleção natural. Mais que isso a própria natureza. Essência.
Nada de filhos, não por escolha própria, talvez em pensamento essa vontade ou em imaginação uma barriga cheia, repleta e empanturrada de vida. A mão cá na barriga e vislumbres, delirios novos frente ao espelho (mas qual espelho?). Sonho seu.
Não da maneira de Werther, de Hamlet, de Pátroclo. Ou mesmo como Severinos e Riobaldos, ela, Maria, de modos somente dela só. Ninguém por si, a solidão apenas, o solipcismo extremo.
A vida da máquina novamente por um fio. A vida da moça nem por um tubo.
06 julho 2006
O cão andaluz (imagem precauccionista)

Imaginem agora um cão. Um cão amarrado num carro. A corda que os une não é maior que o campo de visão do animal nem tão pequena que qualquer freada o faça esborrachar o focinho no pára-choque traseiro do veículo. Se o carro acelerar, o cão deve acompanhá-lo para que não se enforque. O sábio estóico acrescentaria ainda que não importa a ação do animal, ele sempre acompanhará o carro, mesmo morto, mesmo estrangulado. A liberdade consistiria em agir deliberadamente e de acordo com a natureza. Há ordem. Há virtude em seguir a ordem. Mas deve haver uma e somente uma linguagem capaz de descrever o mundo. O carro não pode voar, deve ter quatro rodas, um motor. A corda não pode arrebentar. Há sobretudo determinismo.
Imaginem agora um outro cão. Um outro cão atado ao carro da mesma maneira. Vamos chamá-lo cão precaucionista. Vira-lata. O menor esforço para o vira-lata é a recompensa. Debater-se, esperniar, agitar-se ou resistir de nada adianta. Pelo contrário. Como o cão estóico, ou ele se deixa levar ou anda conforme a velocidade do carro. Contudo, nosso cão vira-lata quer ser livre. Liberdade para ele não é determinada, não é tédio. Seguir o mesmo carro, as mesmas leis, deliberar um mesmo raciocínio, correr de um mesmo modo, tudo isso soa entediante para o vira-lata. Ele quer esbaldar-se na chuva, revirar latas de lixo, correr à toa, dormir quando seus músculos cansarem.
Imaginem que esse cão tem a imaginação de um precaucionista. Qual é a reação do nosso cachorro? Primeiramente ele roerá a corda até libertar-se. Mas que sem graça seria se ele não enganasse seu destino, seu determinismo, seu tédio! Que graça teria essa solução? Após roer a corda, nosso herói continua seguindo o carro, livre, gracioso, até sorriria se a cães fosse dado o dom do sorrir. Por dentro, apenas contentamento. Há maior diversão para um vira-lata do que correr atrás da roda de um carro? O precaucionista, ao contrário do dogmático estóico, é adepto do relativismo conceitual.
Imaginem-se este cão. Vocês podem até imaginar o mesmo carro. Ou outro maior, mais bonito. Podem escolher. Quando se cançam de um, correm para o outro. Podem deitar, coçar as pulgas e dormir. Acredita na possibilidade tanto de se descrever um estado de coisas de várias modos, utilizando diversas linguagens, como de se descrever várias situações de um único modo, com uma única linguagem. Além disso, ele sabe que pode simplesmente criar uma linguagem para um único estado de coisas, fixar um ao outro, como um cão num carro, como uma vida num destino qualquer. Pode também romper a corda a qualquer momento. A qualquer momento, pode se calar. Ou latir quando necessário.
02 julho 2006
Ainda sobre o Precaucionismo
Diferente do estóico, cujo ideal do sábio é a ataraxia, a imperturbabilidade, a moderação e o equilíbrio dos prazeres de corpo e alma, a tranquilidade serena, ao contrário do estóico, o Precaucionista não tem de ser impassível à dor e aos infortúneos, não tem essa obrigação moral. Ele substitui o dever pelo poder, a obrigação pela possibilidade. Jogar com as possibilidade: eis o primeiro passo do Precaucionista. Brincar, esbaldar-se até o cansaço, até que seus pensamentos o sosseguem. A “vantagem” do Precaucionista não se diferencia muito da historieta infantil contada no meio do jogo para benefício próprio e/ou prejuízo de seu adversário. O lucro é como o riso disfarçado que um blefe pode trazer.
Para além de “situações-limite” de cunho ético, o cálculo precaucionista é também lógico. Vamos chamá-lo de “lógico-pragmático”. Acredito que o homem cordial de Sérgio Buarque é o antimodelo para o Precaucionista[1]. O inconsciente certamente é uma entidade dispensável na meta-teoria precaucionista, apesar de ser de extremo valor na composição de um cálculo qualquer que exija uma ‘causa’ obscura e enigmática.
Vamos aos exemplos, porque apenas de teoria não se enche um post. “Como se precaver diante de um jogo de quartas de final?” ou mais especificamente: “Como agir em relação à derrota contra a França?” O Sr. Stener se esquece que o “coelho retirado da cartola” pode ser, dependendo do estado do Precaucionista, de sua situação no jogo, o próprio sofrimento. Isto o distancia novamente do estóico, porque a masoquismo é uma escolha, uma possibilidade, não um dever. Entre as possibilidades do Precaucionista está a vivência crua dos fatos, por mais arriscada que ela pareça, e esse risco conta como uma “variável de ganho”, ou seja, quanto mais arriscada a aposta, maiores são os benefícios. Se eu dissesse que a solução precaucionista sempre é se abster à vida, dar um “jeitinho cordial”, então minha tese seria no mínimo incoerente. Se eu dissesse o contrário, que sempre é viver o sofrimento, deixar-se levar como um boi seguindo a boiada, então minha tese seria no mínimo trivial. O Precaucionista não sofre quando o risco de não viver é menor que as possibilidades de ganho. E alguém poderia me perguntar: “que diabos você ganha em sofrer a derrota?” e “que diabos você ganha em não viver?” A segunda pergunta não tem resposta, ou melhor, é uma pergunta mal-formulada. Por mais ágil, esperto e Precaucionista, eu não posso deixar de viver. O que posso fazer é agir numa situação-limite (e não o tempo todo) da melhor maneira.
Ninguém é precaucionista o tempo todo, assim como a felicidade de uma criança não está em ganhar o tempo todo. Isso seria tédio e não alegria. Como brasileiro, acostumei-me às vitórias, assisti três finais consecutivas, quantas conquistas, quantos brindes, quantos bolões, quantos sorrisos e quantas folgas no trabalho!!! Ganhar novamente, na minha mais que sincera opinião, seria tedioso. Seria, sobretudo, uma alegria estóica, chata. Além disso, posso dizer que em termos históricos chegou a hora de retribuir à Terrinha Lusitana todo cuidado e atenção que dispensaram conosco. Não seríamos precaucionistas sem os portugueses. Não seríamos brasileiros sem os portugueses. Meu coração a partir de hoje é lusitano. Com isso eu respondo também a primeira pergunta. Com isso essa terra cumpre seu ideal. Haja coração, haja coração...
[1] Bom, seria interessante enveredar-me por este caminho e mostrar essa diferença, mas perderia meu foco facilmente. Prometo pensar a respeito. Se alguém quiser pensar por mim, desde já agradeço.

