30 novembro 2006

toda estorieta sem número da Medicina paradoxal

Ontem foi um dia bom. Feriado na casa do sêo Waldemar. Meu pai continua o mesmo – exceto os cabelos e a barba, que envelhecem por si, cada vez mais brancas e escassas. Parece-me um pouco frágil. Fala pouquíssimo – e antes já quase não se pronunciava. A perna dele é igual a minha, o joelho e o tornozelo, idênticos aos meus. O resto são mínimas diferenças. Tívessemos a mesma idade e poderíamos enganar a todos, sendo a mesma pessoa.

Saímos. Restaurante não. Bar tampouco. Buteco, que é onde nos sentimos à vontade. Coçamos o saco, tiramos a camisa e nos espreguiçamos. Houvesse espelho entre nós e seríamos um a imagem do outro. Pergunto-lhe das coisas. Responde-me que vão indo. Quer saber se ando filosofando. Digo que larguei. E o livro? Pendente. Quanto ao quadro que lhe prometera, embora não o tenha pintado, ainda estão nos planos. Um dia, um dia. Enfim eu o abraço ternamente e penso no filho como pai do homem.

26 novembro 2006

sobre a estorieta número 2 da Medicina paradoxal

Pois que se acusassem o autor da primeira estorieta número 1 da Medicina paradoxal de plágio, e mesmo que apontassem Lewis Carroll com todos seus méritos e originalidades, comparando-os de modo a privilegiar o autor de Alice no País das Maravilhas, afirmando com todas as l-e-t-r-a-s, exceto uma, que fica presa nas entrelinhas: Plágio, plágio, plágio... eu padeceria por ambos os autores. Mais ainda porque o acusador, acreditando desferir um golpe de misericordia no autor da estorieta, acertaria em verdade o próprio Carroll, pois ele, e não menos que ele, é quem plagiou inúmeros raciocínios e estórias infantis. Acreditando desferir um soco na boca do estômago de um, em verdade voa sobre o céu da boca do outro.

23 novembro 2006

única estorieta sem número da Medicina paradoxal

Passáramos noite ideal: nem tão quente para evitar a cachaça nem tão fria que se desprezasse a cerveja. O médico o proibira ambos. Seu fígado estava a ponto de expirar. Meu pai não gosta de tocar no assunto. Até o entendo – fosse eu, mandaria todo mundo tomar no cú, inclusive o médico, adentraria o primeiro buteco e encheria o meu cú da mais nervosa dose. Ele é discreto. Bebíamos Antártica. Comíamos rã. Estranho não lembrar-me uma palavra sequer da conversa que mantínhamos. Não me esquece o tom amarelado e o cheiro florido da dama da noite que cultivam próximo à sua casa. Até que o garçom trouxe-nos uma Salinas. Porra!, copo lagu-inha cheio – 3 doses e meia foi o que eu calculei. O cheiro exalou. O ambiente ficara pálido e musgoso. Enterneci. Apertei os olhos, forte, bem forte. Seu costume sempre fora tomar tudo numa só talagada. Imaginava seu fígado explodindo enquanto ouvia o único e derradeiro gole. Copo à mesa. Meus olhos se abriram de susto, e BÚM.

14 novembro 2006

segunda estorieta número 3 da Medicina paradoxal

Ela admirava-me em cada exagero. E jogado a seus pés eu me contorcia por amá-la, cada I´m in love, but I’m lazy promusicado enletéria e mortífera tensão. E descontorcia-me feito peixe feito minhoca. Ela admirava cada sinédoque. Tomava-me pela parte pelo todo. Eu exagerado, transbordava músculos e avessos. Promessas jorravam da minha boca.

- Três orgasmos por semana.

Um amor maior que o mundo, maior que o tempo e tão infinito quanto se pudesse imaginá-lo. E mesmo quando a imaginação falhasse. Cada abundância e hipérbole. Ao quadrado, ao cubo, à última potência. Prometi-lhe a lua.

- Então vá lá e me busque.

E fui com a satisfação de um Sísifo. Pensei num plano infalível. Arranjei uma corda imensa. Dei-lhe um nó de boiadeiro. Rodaria rodaria rodaria a corda, e em três impulsos e três arranques conseguiria que a lua viesse-me suave como rebanho bem-treinado.

O primeiro enlace trouxe-me o lugar onde a lua estava, e onde ela ficaria, pois as coisas no universo não flutuam soltas por aí vagando a esmo; antes seguem regras e eixos fixos. Ondulam. As coisas devem estar em algum lugar. E em lugar algum.

Após obtido o conforto para nosso nobre satélite natural, havia de buscar-lhe seus buracos. E um a um fui arrancando-os de modo que sobrasse apenas o que não se encaixava em nenhum buraco, mas não havia mais nada para manter, pois não não havia mais buracos. Então não precisei jogar a corda pela terceira vez.

De fato, minha corda nada trouxera e ao mesmo tempo não trouxera nada. Tampouco no céu restara uma lua. Donde concluí que de dia ou sob qualquer influência da luz era-nos impossível visualizá-la. Apaguei todas as luzes e mesmo assim nada podia vê-la. Isso ocorrera provavelmente porque a lua não tem luz própria.

Ela fez uma cara de mal-me-quer, o que me dilacerava por dentro as vísceras e fazia-me pensar em suicídio. Exagerado. Jogado a seus pés eu me contorcia e oferecia o meu coração: o sentimento e o músculo.

- Meu coração é todo seu. Vermelho, crepúsculo.

- Então dê-me cá.

Ao que eu atendi prontamente, sem pestanejo. Sem anestesia cortei-me o peito, a cartilagem e as costelas. Ela fez como o Jax do Mortal Kombat e aplicou-me o derradeiro Fatality. Ainda pulsava. E retorcia. Exagerado eu me mantinha de pé sob a lua e seus futuros orgasmos sem mim.

09 novembro 2006

penúltima estorieta número 3 da Medicina paradoxal

Impossível. Tratava-se de um desejo impossível. Meu coração esverdeando, esverdeando. Depois amarelo. Até que branco. Então estava pronto para o teste final, que mudaria de vez os rumos da Medicina paradoxal.

Supunha-se que água sanitária esbranquece qualquer superfície morta. Um tecido, por exemplo. Não obstante, alguns experimentos recentes e avançados demonstram que se o tal objeto já possuir coloração branca, então, ao entrar em contato com o material sódico, torna-se azul-claro, feito azul-bebê, entre anil e metileno. Após esta surpreendente constatação, alguns engraçadinhos resolveram derramar àgua sanitária duas vezes sobre algo que não fosse branco (meu coração!), e depois uma terceira, quarta, e assim sucessivamente, de modo a decidirem sobre a verdadeira ação deste material tão útil às donas-de-casa. E é aí que eu saio desta estória.