28 dezembro 2006
primeira estorieta número 4 da Medicina paradoxal
23 dezembro 2006
Raciocínio inconcluso da última estorieta número três da Medicina paradoxal.
Mas as crianças necessitam da Medicina paradoxal. Pois se as pessoas nascem e morrem em hospitais, não seria este um bom motivo para se brincar de médico?
- Como não?!
Eu sempre fujo, eu sei. Como alguém pode me amar (exceto minha mãe), mesmo com amor minúsculo, mesmo sem músculo. Fujo de amores por qualquer causa: medo, orgulho, insensatez, razão. E eu, que nunca acreditei em dicotomias como razão-emoção, dentro-fora, verdadeiro-falso, sim-não, vejo-me no entre, no talvez universal das coisas. Mas não no ou-ou, e sim no nem-nem (que é um talvez exclusivo).
Fujo por fim de mim mesmo e admito que por vezes sequer sou capaz de me entender.
21 dezembro 2006
primeira estorieta número 3 da Medicina paradoxal
Exalava Coca-Cola. Cada dia mais negro, e não via a cor do Sol. Nem o Sol ele mesmo. Depois da coca a coca, e esbranquecia feito esquimó. Até me enjoar e me encher e decidir enfim por minha pele natural, que se esvairava transeunte em poeira pelos cantos do quarto. Se as crianças crescem e os velhos diminuem, para onde caminham os adultos senão uns contra os outros, indecisos, trombando, trepando de lá para cá.
E ando e indo. Caminhando e ventando e caindo e evaporando. Até que pó. E eu não era nem a poeira dos recantos nem o corpo nu avassalado, tampouco o encontro fútil entre a agulha e o braço, o punho e a navalha - se bem que o malandro aposentou-a para não mais se ferir.
Assim eu confesso, e de outros modos: ainda não fui adulto ou jovem. E menos necessitam as crianças e o Entendimento kantiano da Medicina paradoxal.
19 dezembro 2006
Narratriz de si mesma
Passávamos noite inteira. Éramos capazes de virar de lado e mudar completamente o assunto, mesmo sem palavras, atônitos. Ela tremia. Eu me ria. Tadinha. Você me ama? E eu não soube que lhe responder.
14 dezembro 2006
quarta estorieta número 2 da Medicina paradoxal
(obs.: plágio de mim mesmo em 24/02/06)
06 dezembro 2006
terceira estorieta número 1 da Medicina paradoxal
| Apertou-me o peito a cápsula ingerida. De cujo refugo meu estômago se eximiu prontamente: - Não - proferiu a Boca acinzentada do estômago -, pois se os doentes necessitassem de remédios para serem quem são, basta como índice de sanidade repelí-los, e então já não seriam mais doentes. E entre o esôfago e a traquéia minhas cordas vocais espremiam-se em contrastes afônicos, posto que passava feito um jato por ali a tal cápsula enremediada. Irremediável foi. Até que escapoliu e estalou das cordas um atordido tom em mi, quase meu, mas sem ainda pertencer-me, exceto se supormos que eu sou meu interior. Mas a boca, que representa o fim e o início do sentido da vida, pois diz e sequer é capaz de desdizer-se sem afirmar-se novamente, a boca se fechou radicalmente, contrariando o conluio do resto do corpo, que se esforçava a espelir o medicamento. Ela ficara afática. E persistiria em greve, tanto mais a injustiçassem como a causa de paradoxos performáticos. Não restou outra saída senão volver e terminar o que não se pode dizer que começou. | |
| por Modus Ponens 1-2 | |
| O que resultaria em falácia, por ad absurdum ad hominem, ou simplesmente a falta de senso em se identificar eu e eu mesmo. |
04 dezembro 2006
quarta estorieta número 1 da Medicina paradoxal
No início era o quarto. Kuartz. Kaos. E no quarto não se encontravam canetas, lápis, livros de filosofia. Quatro paredes pois quarto. E daí, deitado, um corpo. No corpo nu, a vontade irrefreável de ser. Sentir. Ou gritar gritos
que se ouvissem tão embaraçados quanto a torcidado Atlético.
Levanto-me como quem nasce. Primeiro a cabeça. Depois o corpo, mas o corpo pelos braços e cada braço pelas mãos. Os dedos e as unhas em busca do lápis que não havia. Então as unhas, em revolta, resolvem arranhar-me o corpo feito bisturi, à guisa de enfeitar-me palavras sangrentas, enfeitar-me para o carnaval dos contos - mal sabiam que no corpo, avermelhado e enturvado de dor, mal cabia uma frase inteira, grande, cheia de vírgulas e entretantos. Isso porque também o corpo, e sobretudo ele, revolvia feito minhoca feito cobra.
Cusparadas ofertavam a tinta necessária para que se pintasse às paredes toda a minha mitologia, que era esta, que era nenhuma. Era a quarta estorieta, que era ela mesma. Sendo.
