31 janeiro 2007

Ordem das Coisas V

A saída permanecia onde e como eu permanecia. E ao inverso, não poderia alcançá-la sem que a imbecilidade não se dissipasse de minha mente. Minhas mãos pendiam à direita e à esquerda, desastradas distraídas desorbitadas. Bobas, imbecis, não se decidiam, ficaram como o asno que se paralisa diante de uma encruzilhada, não por medo ou motivo algum, mas por nenhum motivo ou medo – o que dá no mesmo, uma vez que o medo nos motiva ou paralisa, e não há medo sem motivo. Nem sempre as coisas têm fim. Poucas vezes nem pode-se dizer que começam.

Isso porque no início era o Caos. Agora já nem sei.

30 janeiro 2007

Ordem das Coisas IV

Onde dói. Por onde começo. De onde vem a calma. Onde o vento faz a curva. Onde está o Wally. Aonde levam todos os caminhos. Onde andará Nicanor. Viemos e vamos. Onde estás Pai que me abandonas. Onde cantam os sabiás. Onde Judas perdeu as botas. Onde há fumaça e fogo. Onde as paralelas se encontram. Para onde correm os rios. Por onde entrou.

28 janeiro 2007

Ordem das Coisas III

(antes)

Primeiro eu nela

Depois ela em mim

Por fim, nós em nós mesmos, perdidos como quem entra em beco sem saída ou como os camundongos em sua roda-gigante minúscula e despropositada.

...

Primeiro eu, e é como se morresse

Depois eu novamente, e é como depois do terceiro dia

Ela enfim

E ela novamente

ad infinitum.

...

(depois)

Nós?

Nunca nós ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto – isso digo com algum ressentimento e desilusão.

26 janeiro 2007

Ordem das Coisas II

Na ponta dos pés. Olhos nos olhos. Um lado e outro. Avanço. E Plaft. Sento-lhe uma garrafada. O bicho se estilhaça: pernas-pra-quantos-lados-pernas.

Meu plano falha. Recolho então os pedaços e já que não consigo meter a garrafa dentro do dinossauro, ao menos aprisiono seus restos mortais dentro da garrafa.

O mundo então já não é desmundo, mas uma série de coisas que se unem e separam de acordo com seus nomes. Eu era eu, e único, embora todas as outras pessoas se referissem do mesmo modo sobre si mesmas. De mais a menos, em eu não se coloca plural. Portanto, eu era o ele da estória, e ela, ela mesma. Ele e ela, elos. Éramos. Já nem somos más. Éros.

24 janeiro 2007

"Às Margens Plácidas"

Diretor: Alex L. Martins (hehe... eu mesmo)
Atores incidentais: Guilherme, Agnes, Rafael e Alex
Copyleft, 2007.

Resumo: Alunos de filosofia da UFMG vão à posse do nosso ilustre presidente em 2002 a pretexto de ir no show do Chico Buarque.


Parte I



Parte II

Ordem das Coisas I

O primeiro brinquedo que ganhei fez-me perceber a ordem do mundo. E antes disso que o que se diz é também censura em relação às possibilidades do mundo. Por exemplo, o fato de eu conhecer dinossauros sem nunca tê-los visto torna meus enunciados a este respeito imprecisos ou falsos.

Meu pequeno Dino agitava membros, cabeça e cauda. Azul de manchas negras, mais parecia um Smurf. Os dinossauros eram répteis enormes que se serviam de pequenos homens-de-caverna. Na palma da minha mão pós-moderna aquele serzinho mesozóico parecia inofensivo muito embora seus dentinhos de plástico escapolissem em sinal de defesa.

Feito ator mirim da Globo, fingi medo. Rangia os poucos dentes-de-leite que despontavam. Larguei o pequeno pterodátilo ao chão. Corri à cozinha e apanhei sem pouco esforço uma garrafa de 1.250ml de Coca-Cola. Meu plano era enfiá-la dentro do brinquedo, mesmo sabendo que o contrário fosse mais fácil. Não esmoreci.

22 janeiro 2007

Evolução das Coisas V

Chama-se autômato o comportamento do motorista que dirige por dirigir, e repetidas vezes remonta os caminhos de ida e volta tão naturalmente que ele mesmo duvidaria ter sido ele quem o carrega de cá acolá se não tivesse certeza absoluta de que ele mesmo era seu motorista. Isso porque a certeza é diferente da crença que é diferente da fé que é diferente do conhecimento de si. E nem se lembraria o percurso se este não fosse o mesmo que anos a fio ele percorre. Isso porque utiliza uma memória básica, de curto prazo, cujos dados não costumam imprimir-se na mente. Por outro lado, a mente estaria livre para pensamentos profundos como “a morte da bezerra” ou “o relacionamento hesitante e obtuso entre Dona Florinda e Seu Madruga” – mas não. O tédio, esse sentimento que é o não ter nada na cabeça além do que se nos impõe o corpo, o tédio consome e nos imuniza de qualquer pensamento profundo. O máximo que conseguimos é chegar em casa sãos e salvos sem a ajuda de algum Super-Homem.

19 janeiro 2007

Evolução das Coisas IV

Como quem maldiz o próprio impossível falsificando-o de maneira a tornar verdadeira qualquer possibilidade dessa vidinha comum de hot-dogs e cachorros-quentes, dessa banalidade que se tornou ouvir Chico Buarque a despeito do pai, até isso de saídas tergiversais se faz possível num simples estalar de dedos, feito Clark Kent feito Super-Homem. Em minha cabeça passava um filme de todas as citações que decorei de Nietzsche e não me serviam de nada, pois ela nunca as entenderia, assim como eu nunca as entendi, só decorei, e de cor que era como eu era, não de coração e alma, mas de corpo. Paralisado esmorecia. Mas havia ainda uma saída.

18 janeiro 2007

Evolução das Coisas III

Deixei então que caíssem minhas mãos graves e jovens, mãos graves e envelhecidas. E meus braços não poderiam suportá-las sem que os ombros se curvassem vencidos de batalha alguma. Elas pendiam de lá para cá e não iam nem para a direita nem para a esquerda. Na verdade a saída estava bem atrás. Poderia dizer que era o fim, mas não era, porque quando o final não nos agrada podemos continuar andando em círculo, e repetidas vezes retornar e revolver os mesmos sentimentos, as mesmas coisas. Essa é a lógica do calendário.

11 janeiro 2007

Escreveria o capítulo "De como não fiquei milionário" se a falta de dinheiro não fosse também a falta de ânimo em nossa atual sociedade.

09 janeiro 2007

Evolução das Coisas II

Após tantos ohs e hms, de tais vezes repetidas ou tateadas, de tanto brincar de cobra-cega de duas cabeças e quatro olhos, chegara enfim o momento em que ela vertia em ácidez toda tinta preta que carregava seus olhos. Os meus fitaram em desacordo o chão empoeirado. Era o fim, feito poeira que nunca foi mas era.

07 janeiro 2007

Evolução das Coisas I

Ela me sorriu feito robô depois de eu lhe pedir desculpas como uma mulherzinha. E depois de mais desculpas sua boca estremeceu feito boca de jacaré - feito lagartixa então. A seguir um sorriso de cachorro pregava-se em seu rosto. Por fim, ao lançar-me ao chão e pedir-lhe encarecidamente que me desculpasse uma última vez, seu sorriso despencou feito mulher quase gente posto que madura. E eu, que até então me julgava quase gente, sorri feito menino verde que era sem saber. Enchutado como cachorro na chuva que era meu pranto, ainda abanava o rabinho antes de pregar-me a um canto da parede feito lagartixa. Chorei ainda derradeiras lágrimas de jacaré debaixo dos lençois e dormi aquela noite como um robô sem pilha.

06 janeiro 2007

5 reflexões sobre o feminino

1 - Viagem ao centro de si

Suspirava para dentro de si toda toda em rarefação, tornava-se leveira, raquítica, metamorfoseava-se em sonho; porque de olhos cerrados intensamente; oprimia seu peso então para a cavidade superior do tubo digestivo denominando-se boca seu estado natural. Vomitou-se formiga, dimórfica porque ainda fêmea. Suturou os lábios da quase boceta que lhe espirrara fora, coseu-os em costura hermética, em zigzag. Sem corpo não sentia a gravidade. Transcendia paredes e era como se pusesse abaixo, ia como se viesse, metia-se acrônica desimportando qualquer dualidade; nem razia nem gazua, nem amiga nem amante, tinha seis pernas caso tropeçasse. Não tinha nem mesmo pensamento, que pesam a mente. Sequer se poderia conceder-lhe uma; razão pela qual aceitava de bom grado o contragosto da sacarina. Açucareira preferia quebrar os blocos, as névoas; bem-fazeja preferia carregar de grão em grão, radiavasse ao desencontrar seus pares, roubava a fatura, cominando-o bucho abaixo. Alguns minutos apenas e a formiga enchia-se de si, anciava pela sesta, mais pesada do que o ar que lhe suportava; mas meridiana, tornava à vida.

2 - Viagem excêntrica

Despertou com cinzas na boca, cheirada a café e pão de queijo. Queimou a ponta do cigarro. Tragou-o automaticamente. Arraigou-se no profundo; tal uma âncora estribava-se oniricamente para dentro de seu corpo virgem e cru. A vida da moça, a vida da máquina. Fechou os olhos para a formiga que lhe bebericava o acúcar-cafeína no canto da boca. Fez-lhe cócegas e um voluptuoso movimento de língua foi o bastante para misturar à tudo isso sua saliva. O processo: em diástase, em ptialina, o amido em maltose e dextrose, a formiga-macha em coito melado. Engoliu então seu cuspo. Em seguida tornou ao fumo. Aspirava desmaiando a cabeça e fechando os olhos para o céu. Atéia desprezava o mundo, achava-o em si. Labiríntica esboçava um sorriso. Ninguém percebia o sentimento ingerido, degenerado em energia corpórea; ninguém percebia a objeção contra o primeiro princípio da termodinâmica. Sobretudo, todos a percebiam embora fossem meticulosamente ignorados - eu inclusive.

3 - Isso de delírios e verbos

Verborragia.

A vida da máquina por um fio. A vida da moça por um tubo.

Ela, franzina, cheia de vírgulas e curvas. Curva, assim como a vida e pontos finais. Um isto a mais e pronto. Outrora ousada. Mestre, talentosíssima, jovem, estilosa (na escrita e na lida obviamente). Hoje, aí, por aí adornos pelos cobertores, pelos calafrios, por suas constantes... as dores de cabeça, os vômitos sem substância, as infernais ânsias, o gosto amargo de éter, de enxofre.

E os DELÍRIOS.

Sem elucubrações muito metafísicas. Muito não. Nada de Tomás de Aquino. Nada de Jean-Paul Sartre. Nada de nada. Delírios quase humanos, quase comuns, quase com razão, mas desarrazoada a menina, ela, franzina, entre as vírgulas de sua imaginação fértil e a experiência imediata, divina, tal qual a trancendência, mas sem isso de grande metafísica; tal qual o amor, a sua pieguice, a preguiça do casal à luz do dia. As invejas brancas negras de inveja.

Delírios numa cama bem-posta, como um sonho sempre insensível e nunca abscôndido, toda a cama em sua arrumação costumeira, as enfermeiras sem trabalho em qualquer aí, ABSOLUTAMENTE.

Tudo, exceto os vômitos, as vazantes, os cobertores sujos; o corpo da menina quase não mais próprio a sua vontade – interna, vontade do fundo de si, pois por fora apenas angústia, nolição, ato desatado, um hirto teso, a verticalidade numa cama: sangue mas carne, ossos.

A vida da moça, a vida da máquina. Uma entubada à outra, ambas necessitadas de qualquer digestão, de qualquer respiração verdadeira. Todo o socorro possível, medicamentos, tratamentos, exames, receitas, lista de hospitais, pista de curandeiro, semente de Oxalá, oferenda pra Ogum, encruzilhadas, injeções, fé, muita fé de muitos, promessas, promessas que numa vida pouca e parca dificilmente. Embora nada disso... e nada de qualquer outra coisa, de qualquer possibilidade.

Seus últimos momentos, a morte ali por perto, o restante de si, que porcamente ser-ente est; tanto tempo nesse mundo, dessa gente sem valor, e tão menos que um ISSO pra guria curva e vírgula, a seguir, já-já, seu ponto final, o pôr e o nascer, ambos crepúsculos, ambos iguais. À ruina: o termo.

Ninguém em sã consciência – e mesmo alguém em contrário, contrariado com o rumo da própria vida, ainda assim a existência, isso da qualidade tocante a um simpes pôr de sol. Ao nascimento também, porque unicamente dos astros o movimento, dos seres este ser sacramental, o sacrilégio do ser, sua estaticidade essencial. Mas à grandiosidade destas manifestações, todas essas, do sol e dos seres, sucumbição, soçobração, tudo sem poréns. Seu olhar seu sempre novo a cada dia, quase anodinia, indiferente como o sol, olhar perdido na realidade louca, assim de olhos estufados, eles, dela, imensos, tãomente que as horas para a comoção pequenas, e não mais do que em repouso, virgem.

A vida. Ávida.

Exceto a poesia. A poesia de nós mesmos, e dela.. Por Carlos Drummond de Andrade: De qualquer tempo o tempo. A mesma hora da morte a hora do nascer. De nenhum tempo o tempo bastante para a ciência do reviver. Tempo contratempo, o mesmo em contrariedade, mas o sonho imensurável deste seu viver.

Morte, vida, veracidade e severinos. O rio debalde, e ondas do rio pro marzão, anônimas e seguidas elas, como o sol de todo dia, que de nome talvez menina, somente franzina e só, anônima como vírgula e Maria, ela, como as ondas no eletrocardiograma – as mesmas dessa nossa lida. Vida pequena, deveras, igual a si: Maria, um e cinquenta de pequeneza, hora do almoço, e que coicidência!, a injeção direto na veia, sem fome ou forças para.

Isso de delírios e verbos, de ideais e novas vidas, por conta a perpetuação humana, o concebimento de novos seres através da seleção natural. Mais que isso a própria natureza. Essência.

Nada de filhos, não por escolha própria, talvez em pensamento essa vontade ou em imaginação uma barriga cheia, repleta e empanturrada de vida. A mão cá na barriga e vislumbres, delirios novos frente ao espelho (mas qual espelho?). Sonho seu.

Não da maneira de Werther, de Hamlet, de Pátroclo. Ou mesmo como Severinos e Riobaldos, ela, Maria, de modos somente dela só. Ninguém por si, a solidão apenas, o solipcismo extremo.

A vida da máquina novamente por um fio. A vida da moça nem por um tubo.

A vida reta da moça, só com o desligar dos aparelhos, quando da falência múltipla dos órgãos, e o eletrocardiograma assim:

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4 - A velha, vermelha em gauche, partida ensangüentada e cadavérica no chão do Maletta.

De repente viu cair a moça sua mocidade. Cancerou, apodreceu.

Até que dela tive pena, perder assim-assim o frescor dos poucos anos; motivo nenhum exceto o medo do ridículo. Até compreendo o destino, que arma das suas. Ridícula. Riebeckita, dimorfo de pirolusita, veio sentar-se à mesa. Sem licenciamento. Biriteira, Maria Fernanda Almirante Neta, filha ilegítima de Juscelino, o Kubitschek. Caquética quase nada não podia, indesiciosa babejou um "quando nasci", repetiu "quando nasci...", trepetiu, e um anjo veio-lhe à boca dizendo: "Vá, gauche, ser Carlos na vida"... "Vá, disse-me; e fui!". "Foi?" - perguntaram-lhe. Corroborou com um gesto, mais não podia. Esquecera ou desconhecia. "Vá, Carlos..." - ria-se, ela dela. Aí rimos eu, o Stener, o Guilherme e o Antônio, mas este só de regalo. A minoria mostrava acanhamento. "Vá, Carlos, um anjo dess... torr... que vi, vá, me disse; e não é que eu vim!?" - gargalhou. Choramos eu e o Stener, de rir. O Guilherme forçou riso e o Antônio não achou graça dessa vez. Os outros sorriram, mas de pena. "Um anjo torto" – eu disse. Todos olharam, inclusive ela. Satisfez-se. Continuei: "desses que vivem na sombra, disse: Vá, Carlos! Ser gauche na vida." Era desgraçada, ela. Riu de mim, que ria dela. Ria-se em si, por si, de si. Era a graça a desgraçada.

Pediu copo; apreciava álcool. "Tá com cú chêi e vaintorná" - pensei alto. Caíra-lhe a mocidade; tinha razão. Tomou a primeira, foi ficando sem fala. Só tinha o "Vá, Carlos", que eu fizera-nos o favor de roubar-lhe. Perguntou se tinha de pagar, e levantou reconhecendo amizade antiga. Foi-se; deixou-nos a certeza do nunca mais. Estrabulérica.

De repente rebentou-se; não de nascença. Em escorregão deu de nuca na quina da cadeira. Sustive-me, paralisei o riso. Minto. Ria-me, entre contentamento e descuido, mas só por dentro. Aí minha consciência pesou e mandou-me calar. "Melhor tivesse ido", respondi, "tivesse carloosido".


5 – Ménage

Ela - a outra - era linda, lindíssima por redundância e superlatividade. Era linda, mas linda por confronto; porque a outra, horrenda, engrengava-se-lhe à saia, pequenina, feita cruela, ignóbia, dó não tinha dos olhos de quem a visava e sequer inspirava graça. Ardia, não se podia denominar cômico o seu andar preguiçoso, ignívoro, ignorante. Cuspia brasas tal varana, derrapava-se escorregadia, pirama, piracanjuva caraciforme, deformada. Vinha sem trejeito, a judiar. Cena trágica embora não mancasse um centímetro. Andava feito bizonha cabisbaixa, ostentava baixez, pensando em si como escultura sem braço a sustentar o corpo, desperneando ao suplício de quem vê, será que não pensa em quem a vê? Será que vil não possui espelho em casa? Pensava em si como escultura em farrapos, feita às pressas e dada às traças. Sentia-se bruta. Sentia-se apenas busto de Diotima de Matinéia, matutina não era mulher - nem poderia ser. Vespertina só se comparava com o belo ou algo diverso de si. Faltava-lhe o filo da razão. Era o caniço despensante, que pensava em si sem espelho ter em casa; furúnculo subcutâneo que exibia apenas sua reveste, sua derme e epiderme; verme, conquistava espaço apenas entre os parasitas, apenas entre os não-vivos, os que não necessitam ar puro. Situava-se enmucosas pleuras, submersa ou flutuante, qualquer parte de seu corpo vertia asco e repugnância. Era sem estética. Daninha. Harpia. Chamava-se Roberta, embora significasse a feiúra do inominável.

02 janeiro 2007

quinta estorieta número 1 da Medicina paradoxal

Ressabiado de nada saber, o estômago queixou-se de sua boca porque esta nada lhe tinha a dizer. Então a boca do estômago, ressabiada de nada dizer, respondeu em tom de peido:

- Ora, ora, meu querido estômago, de cujo estômago (você inteira) eu sou apenas a boca, não falo mais do que nada porque sempre estou a comer. E não é possível falar e comer ao mesmo tempo, embora seja possível digerir e falar ao mesmo tempo, assim como não é possível assobiar e chupar manga, a menos que se tenha duas bocas.

- Mas se tivesse duas bocas, teria duas cabeças e quatro braços e pernas e dois estômagos e duas bocas de estômago.

- No fundo seriam duas pessoas diferentes, a não ser que nascessem grudados do pescoço para baixo. Neste caso seriam mais que irmãos gêmeos univitelinos. Cada um teria apenas um braço por direito, mas talvez o primeiro que pensasse em usá-lo tivesse direito de fato sobre ele, o chamado direito personalíssimo; o que nos coloca o paradoxo sobre o direito pessoal, aquele que permite exigir que o outro aja de determinada forma, porque o direito ao corpo não é mais do que a capacidade de usá-lo e a capacidade de usá-lo não se refere bilateralmente no caso destes pobres seres que nascem sem direito à solidão.

- E se quisessem brigar? Quem bateria em quem, se é que não estariam batendo em si mesmos no caso de não acertarem a cabeça?

- Difícil responder. Difícil pensar numa situação dessas sem imaginar que eles não teriam algumas regras bastante determinadas sobre o que se pode e o que não se deve fazer. Quanto menos liberdade, mais regras, assim como quanto mais axiomas, pior a teoria. Afinal de contas, a liberdade deveria ser uma questão de teoria e não de ética.

- Falando nisso, já imaginou uma situação na qual tivessem filhos? Neste caso, não se poderia afirmar com exatidão a paterinidade nem pedindo teste de DNA ao Ratinho.

- Exceto se pensarmos que a intenção de tê-lo interesse mais do que o ato de fazê-lo.

- Tem razão, mas este é um caso bem particular. Na maioria das vezes o gesto se sobrepõe à intenção, seja realizando-a, seja ocultando-a. Veja o nosso caso. Estamos tentando comer e falar ao mesmo tempo sem fazer barulho e sem que os outros percebam que fomos nós os autores deste PUM tão longo e absurdo.

- Surdo?